
Existe uma historinha muito famosa no curso de jornalismo, que todos devem ter ouvido: o palhaço inexperiente sai para fazer uma entrevista e volta para a redação sem nenhum material. O motivo? Um incêndio parou o trânsito impedindo que o sujeito chegasse ao entrevistado. O palhaço chefe fica furioso, com razão, pois a grande manchete do dia seria o próprio incêndio.
Infelizmente devo admitir que por alguns momentos me senti a própria palhaça inexperiente esta semana.
Tive a oportunidade de conhecer Guangzhou, capital de Guandon, na China, que antigamente era conhecida como Canton. Entre outras coisas fui fazer um freela para uma revista que será lançada este mês. A matéria era sobre uma das maiores feiras de negócios da China, a Canton Fair, que estava na centésima edição e completando 50 anos.
Na feira tinha tudo que se possa imaginar: produto têxtil, eletrônico, automotivo, calçados, máquinas industriais, tudo para construção civil, utensílios para cozinha, móveis, objetos de decoração, área médica e hospitalar, artigos eróticos etc. Entrevistei alguns visitantes e fabricantes, consultei alguns preços, tirei algumas fotos e encerrei minha matéria. Até aí parece tudo normal, rotina de trabalho.
Mesmo com a falta de organização, infra-estrutura, segurança, higiêne, o tráfego caótico, pobreza, superpopulação e baixíssimo nível cultural das pessoas (... o Brasil fica na África e falamos espanhol), acho que poderia ter sido uma viagem legal. Mas não foi. TUDO POR CAUSA DA POLUIÇÃO.
Imagine o ar do centro de São Paulo 30 vezes pior. Imagine seus olhos pesados, carregados, com uma visão cinzenta constante. Seu pulmão fazendo força para puxar o ar, seu nariz sujo, sua pele brilhando e seus poros entupidos ao fim do dia. Eu prestava atenção quando respirava, tão louco como querer controlar cada batimento cardíaco, respirar não era mais automático, tinha que fazer um certo esforço. É algo que não dá para descrever e nem mostrar por vídeo ou foto, tem que sentir mesmo. Pela primeira vez tive vontade de voltar no mesmo dia que cheguei. Queria sair correndo!! Desistir de tudo, de verdade. Me esforcei para não chorar enquanto andava na calçada, pois estava com um grupo de amigos, que também se mostrava incrédulo.
Esta sim deveria ter sido minha grande pauta: a poluição!!
Pessoalmente esta foi a viagem mais frustrada e infeliz. Como profissional fiquei chocada, acho que é tão marcante como cobrir uma guerra, um grande desastre, um terremoto, sei lá.
A China exporta para o mundo todo, isto é fato, todos sabemos. Mas a poluição é algo inacreditável, inaceitável. Antes imaginava que meus netos ou quem sabe bisnetos fossem presenciar aquele cenário de começo do fim do mundo. Mas já estamos vivendo este momento.
Não é exagero, não estou sendo sensacionalista, acreditem!!
Assinar o protocolo de kyoto é realmente impossível para a China.
Fiquei me perguntando a todo momento: como este aglomerado de chineses vive? Será que eles não estão notando nada mesmo? Estariam adormecidos pela rotina, pela pobreza? Confesso que no quinto (e graças a Deus último) dia de viagem eu já estava respirando sequencialmente, assim como os chineses. Mas cada vez mais cansada, desgastada, irritada e asfixiada.
Não vou fazer aqueles discursos politicamente corretos, porque todo mundo tá vendo a loucura que estamos vivendo; o inverno é quente, o verão é nublado, pinguim aparece em Copacabana, baleias jubartes ficam encalhadas nas areias do nordeste, as geleiras da Antártida derretendo rapidamente e assim por diante...
A China se vendeu para o mundo e de brinde acabou com ele. Fez valer o bordão "Negócio da China". Progresso, dinheiro e prosperidade! E Viva o país do futuro!
Na internet achei algumas notinhas dizendo que na China houve uma diminuição na radiação solar, diminuição no índice de nitidez, 400 mil pessoas morrem prematuramente todo ano etc.
Queridos colegas jornalistas de todo o país, não podemos mais ficar dando notinhas de rodapé, repetindo textos minúsculos de agências de notícias. Vamos fazer mais matérias sobre o assunto, quem sabe manchetes semanais. Vamos falar deste assunto exaustivamente. Vamos chamar a atenção do país e do mundo. Seria muita pretensão querer mudar esta situação? Será que conseguiríamos pelo menos começar? Esta é uma eterna pauta, definitivamente. Onde estão nossos colegas correspondentes na China? Será que já se acostumaram? Ou morreram?
Chega de anestesiar o brasileiro com futilidades locais. A Cicarelli trepando na Europa é mais importante, dá mais ibope, ganha muito mais espaço na mídia!! mas e o resto do mundo??
O mais interessante é que a Ásia só tem destaque na mídia brasileira quando um lunático resolve fazer teste nuclear, um tsunami arrasa vários países, quando uma princesa acaba parindo um exemplar macho na linhagem da sucessão imperial etc. E o resto dos dias? Acho que já é hora de aproximar os problemas da Ásia ao Brasil e vice-versa. Afinal estou cansada de ouvir "oh yes Brasil!! Ronaldo, futebol and samba. Hablas español?" Somos muito mais do que isto caramba!!!
Para mim antes o mundo era redondo, sem começo, meio e fim. Agora ele ficou reto, começa no Brasil, passa pelos oceanos e acaba na China. Sim, lá é o fim do mundo. Agora eu sei onde Judas perdeu as botas.
Shanghai? A grande Muralha da China? A cidade proibida? Já perdi todo o tesão de querer visitar estes lugares. Não quero ver cenários turísticos construídos para iludir os olhos. Conhecer a realidade, o verdadeiro mundo cão chinês me bastou.
Não suporto gente que fica condenando ou glorificando outras culturas e países, mas definitivamente é difícil ficar calada neste caso. Até entendi o porquê da descriminação ao sexo feminino, do trabalho escravo, do aumento da proliferação do HIV, do controle de natalidade, mas esse assassino invisível e silencioso, a poluição, não passou pela minha garganta ou melhor dizendo pelo nariz!!
Confesso que antes tinha uma visão negativa e até um pouco preconceituosa em relação aos chineses, mas agora mudei: tenho pena deles. Não sei o que é pior.
Desculpem a agressividade, mas este texto foi um desabafo, uma reflexão pessoal. Sei que jornalista é palhaço e não super-homem, mas temos sim nosso dever social de alegrar (ou alertar) o povo. Quem sabe uma mágica surge do picadeiro?
Para quem quiser conferir as matérias (notinhas) na internet:
http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI514338-EI299,00.html
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13917.shtml